Das Dores, Amarias!?


Por que me amar se me bates
Se hora bates que é de amor?

 

A noite traz-me o terror da tua vinda
E o sabor dos prazeres que explodem
Quando me tocas
Até que discrimino
Se são tapas ou afagos tudo o que sinto…

 

Tua mão no meu rosto
Espanca ou afaga
E no meu desatino
Temo gostar de quem tanto odeio
Quando na verdade odeio a todos que amo.

 

Por não saber do amor
Amar ser amada nem feliz
Suplico na boca da noite
Me açoite até que o gozo
Me possua me destrua me defina.

Luto


 

foto Gilberto Rodrigues

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Eu preciso enterrar os meus mortos
As minhas perdas
E isso eu tenho que fazer só
 
Semeio lírios brancos em torno da minha história
Minha memória reluta em ceder aos fatos
Mas meus atos me empurram pra vida nova

 

Eu preciso desarrumar todas as gavetas
Desfazer todas as malas das viagens que não fiz
Refazer todos os caminhos dos sonhos que não dormi

 

Eu preciso estar só comigo mesmo
Pra que este caminho não tenha marcas que não sejam minhas
Nem destinos que os não traçados por meu coração

 

Eu não posso agora estender-te as mãos
Nem acenar-lhe frestas no meu futuro
Pois senão não o acolherei quando do rasgar das minhas vestes

 

O tempo desfiará minhas lembranças
E o porvir será marcado por dores e desejos
Para um renascer que deverá ser só e impiedoso

 

Ao sacudir a poeira das catacumbas e orar o hosana à vida nova
Necessitarei de olhar-te como quem vem pra uma vida nova
E não como quem traz marcas de um tempo que esquecerei

 

Eu preciso enterrar os meus mortos
As minhas perdas
E isso eu tenho que fazer só

 

Se você puder estar ao meu lado
Não para meus consolos e meus lamentos
Mas para a glória da vida nova…

Lembranças


foto Gilberto Rodrigues

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Quando a lembrança vem e não traz consigo a dor

Podem os sonhos bailar livres dos medos de se perderam

E encaminhar seus destinos pra outras paragens

Com esperança de que há uma nova aurora a alvorejar

 

Quando a lembrança vem e não me deixa com pesares

Enrolo os registros da memória e retiro-os das paredes

Pois não cabem mais pendurados em minhas molduras

Marcando um tempo que um dia eu quis fosse infinito

 

Quando a lembrança vem e conto-a como se fosse um conto

Espanto-me por não vê-la tão intensa nem tão importante

Riu-me por ter sofrido dores de desespero infindo

E lamento ter visto tanta beleza onde tão pouco de belo havia

 

Quando a lembrança vem e já não consigo deslumbrar-me

Fico atônito por sempre ter visto tanta coisa tão igual

Fico aliviado por ter-me dissipado de uma miragem

Que mirei em ti com as cores do que era ideal dentro de mim

 

Quando a lembrança vem e já nem tento mais evitá-la

É porque sua importância em minha alma já se esvaiu

E você não passa mais de um desejo que fora um dia

De realizar-me na possibilidade de nossos encontros.


Anunciação


foto Gilberto Rodrigues

Faz-se n’alma tão intenso
Esse tempo no brilho da vida
Que não há sem receios espaço
Prá doer ou calar saudades antigas
 
Esse agora é tão pleno e tão forte
Que qualquer lembrança de outra era
Não faz sequer nuvem leve ao presente
Por mais pleno o que um dia lá houvera
 
 
Do ápice do topo do tempo
Já não vislumbro nenhum porvir
Nem tampouco saudades lamento
 Se o tempo faz-se prenhe de existir
 
Acalento no colo a semente fecunda
Germina em minh’alma  seiva de vida nova
O futuro os meus sonhos todos inunda
E minh’alma em tamanha tormenta se renova
 
A semente emprenha minha boca voraz
E se grito semeio amor a todos os ventos
Recolhe os brotos o colo deveras audaz
Prá na boca da noite saciar seus intentos
 
Oh! Terra mulher bela eternamente
Entrego-me a ti sozinho assim
Útero fecundo de mim semente
Acolha em seu colo a plenitude de mim
 
Siga sua sina e seus sonhos plenamente
Faça de cada passo eternos caminhos
Se haverá um chegar ou um destino de repente
De nada importa se já tivermos nos fecundado
 
Minha carne em suas entranhas vira poeira
Em suas entranhas minha alma se eterniza
Minha carne em suas entranhas vira prece
Em minhas entranhas su’alma  fica divina
 
E as trombetas do paraíso exultam incontinentes
Anunciando o segredo fecundado
Serão felizes e plenos eternamente
Estes corpos que pelo amor foram santificados.

OS ENCANTOS DO PÁSSARO AZUL


 
 
Resenha

 

foto Gilberto Rodrigues

A OBRA

FRANCE, Anatole. O Crime de Sylvestre Bonnard

239 p. – Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura [ Prêmio de 1921]

Tradução: Álvaro Moreyra

Estudo Introdutório: Jacques Chastenet

Editora Delta – Rio de Janeiro, RJ – 1963

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Et nunc dimittis servum tuum, Domine![1] (E agora manda embora o teu servo, Senhor.) Assim, em latim, com esta frase, Anatole France termina esta obra. Assim, como se terminasse uma derradeira oração. Pronto, agora me manda embora, deixa-me ir.

Após uma história de dedicação, desencontros, amores perdidos e amores não vividos, narrada na primeira pessoa, Sylvestre Bonnard deixa-nos, no silêncio, a dúvida: quantos crimes cometera? O título da obra é posto no singular. Porém, por razões e motivações que não comportam censura, Sylvestre Bonnard cometera dois crimes. Importantes. Graves. Confessos.

Vejamos como fala destes dois crimes:

 Certa vez, sendo convidado pelo Sr. Paul de Gabry, sobrinho e herdeiro do Sr. Honoré de Gabry, par de França em 1842 e descendente de antiga família de magistrados, para inventariar a biblioteca que ficara como herança para o Sr. de Gabry, uma rica biblioteca com muitos e preciosos manuscritos, alguns datados de século XIII, relatara a este Sr. sobre o que lhe ocorrera. Após esta confidência ao Senhor de Gabry e uma longa discussão sobre o acontecido, reconhece: Pouco a pouco, porém, ouvindo os esclarecimentos tão sensatos do Senhor de Gabry, terminei por aceitar que seria condenado, não pelas minhas intenções, que eram puras, mas pela ação que era criminosa.[2] Isto se deu em 28 de dezembro de 1876. Sylvestre Bonnard não fora condenado por uma dessas ações do destino, se é que ele existe. Crime cometido, reconhecido, confesso. O Senhor de Gabry, fundamentando-se no artigo 354 do código penal da França daquela época, deixou-o sem qualquer expectativa de livrar-se de uma condenação e mostrou-lhe ainda: Veja o código penal, 21 e 28… 21: o tempo de prisão será, pelo menos, de cinco anos… 28: _ A condenação importa na degradação física.[3] Mas quem poderia denunciá-lo fugiu, também, por um crime que cometera. Neste caso, um crime idêntico. Semelhanças às vezes são mais fortes que coincidências. Não havia queixoso. Não houve denúncia. Sem crime, então? O crime fora cometido, apesar das intenções que eram puras. Mas não será julgado.

Quase um ano depois, 20 de setembro de 1877, como se desabafando para Aníbal, seu novo companheiro, que substituíra Hamílcar, na casa dos livros, sua biblioteca, Sylvestre Bonnard, referindo-se agora a uma outra situação, novamente confessa: E foi então que conheci o crime! As tentações vinham-me durante a noite; ao amanhecer tomavam conta de mim… Consumado o crime, de novo me sentava a trabalhar…[4]

A qual dos dois crimes, distintos em qualificação, época e objeto, se referia Anatole France ao nomear, no singular, sua obra?[5] Terá, intencionalmente, deixado para o seu leitor a árdua tarefa de classificar qual teria sido o crime cometido pelo seu personagem? Terá desejado levar-nos à reflexão sobre a qualidade deste tipo de crime e de como deveríamos nos comportar ao julgarmos o Sr. Bonnard? Ou não intencionou nada disso? Mas o Senhor de Gabry, preocupado com o destino do amigo e os rumos que poderia tomar a sua sorte, se um processo fosse aberto, alerta-o, preocupado, caracterizando a gravidade de um dos crimes: Pelo amor de Deus e pelo seu interesse, não faça nada! Seu caso é péssimo; fique quieto para não torná-lo pior. Prometa-me apenas concordar com tudo o que eu fizer.[6] E o Sr. Bonnard, impassível porém convicto, perseverava: tinha medo, mas não tinha remorsos nem arrependimento.[7]

O Sr. Sylvestre Bonnard, à época dos crimes, conforme minha leitura, ou do crime, conforme sugere Anatole France, estava com setenta anos de idade. Quanto a sua profissão, ele mesmo nos conta: nada há para mim no mundo, além de palavras, tanto me tornei filólogo. Cada qual faz como pode o sonho da vida. O meu é feito na biblioteca; e, quando chegar a hora de partir do mundo, Deus me encontrará na velha escada, diante das prateleiras cheias de livros.[8]

Desconheço alguém que nutrira tanto afeto, cuidado e dedicação ao livro. Sua vida era constelada pelo seu manuseio, busca incessante de exemplares valiosos e arroubos de prazer quando do achamento de algum que rareava longe de sua casa de livros.

Cada um daqueles livros, daqueles alfarrábios, ficava totalmente marcado, como se fizesse uma identificação personalizada, pelo polegar, já curioso por força de hábito, daquele homem estudioso como se perscrutasse segredos já desde o seu manuseio. O livro não lhe bastava somente enquanto objeto de leitura, mas além disso, de descobrimento de si mesmo, de angústias importantes que lhe traziam páginas misteriosas e de encontros de segredos e explicações sobre a vida, o mundo e o universo.

Sylvestre Bonnard era um homem nobre, com intenções nobres e ações nobres. Havia nobreza até nos seus crimes. Porém, apesar de tanto, era um criminoso. Viveu uma vida simples, entre poucos personagens, além daqueles que lhe apresentavam os seus alfarrábios. Por manuscritos, garimpava notícias de seus paradeiros nos seus catálogos, percorria léguas e léguas sem medir esforços. Na simplicidade de suas buscas, valores profundos, por simples mesmos, obrigam-nos a reflexões profundas.

 Esta obra é dividida em duas partes. Na primeira Anatole France nos conta a saga de Sylvestre Bonnard para conseguir A Legenda Dourada, de Jacques de Voragine; tradução francesa do século XIV, pelo clérigo Jean Tontmouille.[9] Tomou conhecimento dessa obra através de um catálogo de manuscritos, redigido em 1824, pelo Sr. Tompson, bibliotecário de Sir Thomas Rualeigh. Em sua casa conviviam, entre afagos e ronrons, seu amigo Hamílcar e Thèrése, a governanta.

Num desses dias, que a vida deixa como se tudo fosse absolutamente comum, o Sr. Bonnard é incomodamente interrompido das buscas em seu catálogo, por um tal Sr. Coccoz. Um consultor de livraria. Esta visita é importante, pois além de descrever um belo diálogo em torno das mesmices do dia-a-dia, sensibiliza o Sr. Bonnard para a esposa do Sr. Coccoz, que encontrava-se grávida e morava, provisoriamente, no sótão do seu casario. Compadecido da situação daquela jovem, o Sr. Bonnard encarrega Thèrése, sua governanta de, naquela noite, chamar o amigo servente e pedir-lhe para apanhar, no depósito de lenha, uns bons cavacos de lenha para aquecer o domicílio dos Coccoz. E, principalmente, que ela escolha entre as achas, a maior, uma autêntica acha de Natal. Tempos depois, a Sra. Coccoz enviuva-se e em seguida casa-se com o Príncipe Trepof.  Esta obra já torna-se merecedora da partilha do nosso tempo, por mais precioso que este possa ser, somente pelo prazer de vermos como a então Princesa Trepof presenteia Sylvestre Bonnard com a sua Legenda Dourada. Vejamo-lo ao abrir o presente. É ele quem nos relata:

É um embrulho grande, mas não muito pesado. Tiro, na biblioteca, as fitas, o papel que o envolve. E encontro… quê? Uma acha de lenha, uma grande acha de lenha, uma verdadeira acha de Natal tão leve porém, que acredito esteja ôca. Com efeito, descubro que é composta  de dois pedaços, unidos por uma espécie de fechadura, fácil de abrir. Abro-a e sou coberto de violetas. Caem na mesa, nos meus joelhos, no tapete, entram-me pelo colete, pelas mangas. Fico todo perfumado.

[...] Tirei as violetas da acha de lenha e elas espalharam-se pela mesa com a sarça que as acompanhava, toda aromada também. Há ainda qualquer coisa na acha… um livro…um manuscrito. É … não posso acreditar e não posso duvidar!… É A Legenda Dourada. É o manuscrito de Clérigo Jean Toutmouillé.[10]

 Permeiam ainda esta primeira parte da obra, um alfarrabista, o príncipe, colecionador de caixas de fósforos e atual marido da ex-Sra. Coccoz, o tio Victor, um capitão em Waterloo e uma boneca. Uma boneca cobiçada por Sylvestre Bonnard. Fascinava-o esta boneca quando tinha oito anos de idade. Sua sensibilidade conduzia-o para o belo independente de atrelar ou não seus modos pelos costumes e pelos comportamentos que os padrões discriminavam e catalogavam como usuais, considerando, de forma discriminatória e preconceituosa, o que seria mais ou menos adequado a cada sexo. Algumas almas mais nobres vagueiam por sobre esses determinismos. E ele queria esta boneca. Os hércules têm fraquezas,[11] consolava-se. Mas, caro Sr. Bonnard, por isso mesmo, por não temer as fraquezas, Hércules. Vejamos como nos conta este episódio, marcante, provavelmente, de sua vida:

Revejo com  singular precisão uma boneca que, nos meus oito anos, estava exposta numa loja feia da rua de Seine. Como aconteceu que essa boneca me fascinasse, não sei. [...] Meus soldados, meus tambores não me interessavam mais. A boneca era tudo para mim[12]. Um dia, passeando com o seu tio Victor pela rua onde ficava a loja que tinha aquela boneca, com a saia florida, as bochechas vermelhas e as pernas esticadas resolveu tentar que o tio lhe fizesse dela um presente:

_ Tio, o senhor compra essa boneca para mim?

_ Comprar uma boneca para um homem! Queres perder a honra?[13] E é essa bruxa que desejas? Pede-me um sabre, pede-me um fuzil, e eu os pagarei com a última moeda do meu soldo de reformado. Mas, comprar uma boneca, raios te partam! Desmoralizar-te! Nunca! nunca! Se te visse brincar com uma rameira ataviada como essa, senhor filha da minha irmã, não te reconheceria mais como filho da minha irmã.[...]

Tomei ali uma resolução. Jurei a mim  mesmo não me desonrar; desisti, firme e para sempre, da boneca de bochechas vermelhas. Conheci, nesse dia, a austera doçura do sacrifício.[14] 

O que ficara plantado, profundamente, ali, na alma daquela criança?

Ainda naqueles devaneios, por onde passeava em busca de reminiscências, deparou-se, além da boneca, com Clémentine. Aquela filha de um amigo de seu pai, a avó de Jeanne Alexandre e a única mulher que amara em toda a sua vida. Clémentine foi-se, casou-se, morreu. Compreendi que o que tinha amado não era mais que uma sombra. Mas a lembrança desse amor ficou sendo o encanto da minha vida.[15] O encanto agora era Jeanne Alexandre. Qualquer dificuldade que pudesse se interpor entre os dois seria, sem dúvidas, interpretada como causadora de desencanto. Houve interposições. Houve um crime. Que crime poderia ter cometido Sylvestre Bonnard? E afinal, o que é um crime?

 II Parte

 Não saberia dizer por que nem por quanto tempo os meus olhos estavam fixos, sobre o velho in-fólio, quando foram arregalados por um espetáculo de tal maneira espantoso, que um homem como eu, sem fé no sobrenatural, assim mesmo tinha que ficar estupefato.

Vi, de repente, vinda não sei de onde, uma mulher sentada no dorso do livro, um joelho dobrado e uma perna pendente, …Era tão pequena que seus pé balançando não chegava até à mesa sobre a qual se estendia em dobras a cauda do vestido. Mas o rosto e as formas eram de mulher adulta.[16]

Três dias depois, ao retornar de uma viagem:

Dirigi-me ao salão maior sem ver ninguém. O castanheiro, que ali estendia suas grandes folhas, deu-me a impressão de um amigo. Mas o que vi em seguida, sobre o consolo, tal surpresa me causou que reajustei com as duas mãos os óculos no nariz e me apalpei para ter a noção, ao menos superficial, da minha própria realidade. Mais de vinte idéias vieram-me num segundo ao espírito, e a mais teimosa era a  de que eu tinha ficado doido. Parecia-me impossível que o que eu estava vendo existisse, e, ao mesmo tempo, era impossível que eu não o enxergasse como uma coisa existente.

[...]

Rendi-me, afinal. Não duvidei mais, diante de mim, estava a fada, a fada do meu sonho na biblioteca

A voz da Sra. de Gabry chegou de súbito aos meus ouvidos:

_Está examinando a sua a sua fada, Sr. Bonnard? Acha-a parecida?[17]

Ah! Como esse mundo é mesmo pequeno. E redondo. Nos romances assim como na vida! Você já sabe quem foi a artista que materializou a visão do Sr. Bonnard, deixando-o atônito? A neta de Clémentine, Jeanne Alexandre.

Jeanne Alexandre perdera, como já sabemos, a mãe, e ficou só, sem alguém que lhe cuidasse.  Fez-se seu tutor um tal Sr. Mouche que a internara sob a responsabilidade de Mademoiselle Préfère. Virgínie Préfère. Quando Sylvestre Bonnard a viu, fez dela a seguinte descrição: uma criatura curiosa. Caminhava sem levantar  as pernas e falava sem mexer os lábios.[18] Mademoiselle Préfère dirigia o colégio da Rua Demours que recebia as filhas das melhores famílias, dava lucro e era muito conceituado.[19]

Sylvestre Bonnard, após uma visita ao Sr. Mouche, tutor da Srta. Jeanne, conseguiu uma autorização para visitá-la na primeira quinta-feira de cada mês. A impressão do Sr. Mouche sobre a Srta. Jeanne: ela é indomável.

Isto tudo deu-se porque, a partir do momento em que ficou sabendo que Clémentine, seu único e grande amor,  deixara uma neta, e que esta poderia ser sua, resolveu investir o que lhe restava de sua vida, para cuidar de “sua” neta, tornando, a partir de então, sua grande, senão única, razão para viver. Determinado, como se fizesse desta resolução sua sina, daquelas que se obriga ao cumprimento, obcecado, não aceitaria qualquer senão, ou não, ou dificuldade, para que tal sina se cumprisse. Sylvestre Bonnard trocaria sua alma, se necessário, pela possibilidade de cuidar dessa jovem que vinha, em sua vida, como se a lhe trazer uma nova e profunda razão para viver: a relembrança de um amor não vivido. Como relembrar do que não houve? Relembramos dos sonhos, lembranças perfeitas. Por isso mesmo perigosas, pois não se parecem com a vida, onde nada pode ser perfeito.

E obstáculos não faltaram para dificultar seu intento: um tutor inescrupuloso e uma diretora insensível e interesseira – que após tentar se casar com o Sr. Bonnard, sem sucesso, afasta drasticamente da Srta. Jeanne. E para suas intenções, boas, até a lei tornara-se empecilho, pois não lhe facultava que seu desejo simplesmente se realizasse.

Superados todos os obstáculos, inclusive do julgamento por um crime cometido, Sylvestre Bonnard consegue levar Jeanne Alexandre para sua casa e casá-la com Henri Gélis, um aluno do terceiro ano da Escola de Arquivística. Tudo parecia prenunciar um final feliz.

O Sr. Bonnard muda-se para Brolles. Minha casa é a última que aparece na rua da aldeia, antes da floresta. É uma casa de fachada pontuda cujo teto de ardósia, batido pelo sol, toma todas as cores. O cata-vento, no meio do telhado, dá-me  mais consideração entre os camponeses do que todos os meus trabalhos de História e de Filologia.[20] Nesta casa era mantido um quarto para quando Jeanne e Henri viessem visitá-lo e nele, um berço para o jovem Sylvestre Bonard. Haviam-no convidado para padrinho e o homenagearam, dando ao filho o seu nome.

Eu lhe contava histórias. O pequeno Sylvestre ouvia-as feliz. Gostava de todas, mas principalmente uma maravilhava a sua alminha: a história do Pássaro Azul. Quando eu terminava, tornava a pedir:

_ Conta, conta!

Eu contava outra vez e sua cabeça pálida, de veias salientes, caía sobre o travesseiro.

A resposta do médico a todas as nossas perguntas era sempre a mesma:

_ Ele não tem nada de extraordinário.

Não… o pequeno Sylvestre não tinha nada de extraordinário. Uma noite do ano passado o pai desceu ao meu quarto:

_ Venha depressa; ele está pior. Aproximei-me do berço. A mãe parara ali, presa por todas as forças da sua alma.

O pequeno Sylvestre volveu lentamente para mim os olhos que se pagavam sob as pálpebras já imóveis, e murmurou:

_ Padrinho, agora tu não precisas me contar histórias.

Não, agora eu não precisava lhe contar histórias!

Pobre Jeanne! Pobre mãe!

Estou velho demais para continuar muito sensível; mas, na verdade, é um mistério doloroso a morte de uma criança.

[...]

Et nunc dimittis servum tuum, Domine![21]

 Caro leitor, se a curiosidade sobre qual é o crime de Sylvestre Bonnard, a que o título da obra se refere, lhe inquieta a alma, tome em seu colo o livro de Anatole France e descubra-o. Será, tenho certeza, um achado prazeroso. Mas, tome em seu colo essa obra por uma outra, e muito mais importante razão: não cometer o crime de não ler essa obra de Anatole France. Use a sua argúcia, perscrute a sua curiosidade e renda-se … é, indubitavelmente, uma grande obra. Divirta-se.

Quero ainda um fio da sua atenção, caro leitor. Confesso-lhe que causou-me surpresa perceber o quanto, em nossos dias, Anatole France é desconhecido. Mesmo no meio daqueles que são afeiçoados e íntimos de grandes obras da literatura universal. Se você é um amante da boa leitura, redescubra-o. Se não é ainda dado a esses amores, leia-o e se encantará.

No campo das letras, as reputações se fazem e desfazem a toda pressa; os mestres que ontem eram os mais venerados, hoje são desprezados. Anatole France padece do nosso desprezo. Poucos o conhecem ou sabem alguma coisa sobre a sua obra, ou leram alguma delas. Apesar de que Anatole France é mais para ser saboreado que para ser lido…

Anatole France nasceu Anatole Thibault a 16 de abril de 1844, em Paris.Seu pai, François-Noël Thibault, oriundo do Anjou, tinha no Cais Malaquias, um mostruário de alfarrabista com a tabuleta “Livraria de França”. ( Daí, sem dúvida, mais que de um impulso de orgulho, o pseudônimo que o filho adotará).

A especialidade da casa é a revenda de obras, caricaturas e manuscritos relativos à Revolução. Ali Anatole tomará gosto pelos velhos papéis e as doutas conversações.

Anatole France aos 12 de outubro de 1924, ao cabo de penosa agonia, solta o derradeiro suspiro.

Sobre a obra reproduzo aqui o que escreveu Jacques Chastenet, da Academia Francesa:

1881: Anatole France vai fazer trinta e sete anos, e sua reputação ainda não ultrapassa os limites de um estreito cenáculo. Mas eis que em abril a publicação  de um novo livro, O Crime de Sylvestre Bonnard, Membro do Instituto ( do qual tinham aparecido capítulos em diversos periódicos) granjeia-lhe de golpe a notoriedade. A Academia Francesa premia a obra.

Mais do que um romance, O Crime é a justaposição de duas longas novelas dispostas em torno de um mesmo personagem central, o erudito Sylvestre Bonnard, velho pela idade, jovem pelo coração, eloqüente, espirituoso e, em suma, delicioso. A dupla historieta é assaz tênue, e não lhe faltam inverosimilhanças. Que importa! A linguagem é constantemente pura, viva, requintada sem preciosismo; as cenas sucedem-se, ora agradáveis, ora enternecedoras, jamais pesadas; os quadros desfilam – cais de Paris, paisagens sicilianas, pitorescos interiores – sempre de uma extrema segurança de toque; comparsas agitam-se, descritos com segurança de mão.

Talvez, com o recuo dos anos, tanta inteligente elegância se mostre um pouco desbotada. Só um pouco. O Crime de Sylvestre Bonnard  é uma incontestável obra-prima, e merece permanecer como regalo para espíritos finos.[22]


[1] p. 230 ( E agora manda embora o teu servo, Senhor.)

[2] p. 211

[3] p. 209

[4] p. 226

[5] Título do original francês: LE CRIME DE SYLVESTRE BONNARD

[6] p.211

[7] p.212

[8] p.117

[9] p.84

[10] p.110

[11] p.77

[12] p.77

[13] Abdicar de uma boneca pela honra. Não seria já, prematuramente, a indução leviana e cultural, daquela criança ao mundo dos crimes mais perversos que o homem pode cometer, pois faz de si mesmo, sem o saber, o que é pior, objeto de seu próprio crime?

[14] p.79

[15] p.117

[16] p. 124

[17] p. 131

[18] p. 158

[19] p.172

[20] p.228

[21] p. 230

[22]  p. 38


Adeus ano novo, (in)feliz homem velho!


foto Gilberto Rodrigues

Vamos já por meados de janeiro. Ressoa ainda em nossos ouvidos o que talvez tenhamos mais escutado por volta de um mês atrás, vésperas das comemorações de natal, da passagem de ano. Escutamos pelos quatro cantos, pois ecoava aos quatro ventos, a expressão de um desejo de que o ano que findava fosse embora o mais rapidamente possível e que o ano vindouro trouxesse perspectivas de que todos os sonhos, planos, desejos e projetos que não se concretizaram ano passado pudessem agora, no ano novo, tornarem-se realidade.

Observa-se então que este é um ritual que se dá a cada ano, todos os anos, sem mudar nada. Em todo final de ano há o desejo de que o ano que finda se vá o mais rápido possível para que o ano novo seja promissor e nele, nossos sonhos se realizem. Mas como sonhos novos e projetos interessantes se realizarão se continuamos a ser os mesmos homens velhos que sempre fomos? Ao não mudarmos condenamos o ano que se inicia à mesmice desinteressante de sempre.

Há algo errado, com certeza nessa equação. Uma fria e desalentadora constatação é de que os pedidos, de que no ano novo fossem realizados os sonhos e os desejos de cada um, não aconteceram. – Ou então poderemos olhar de outro modo: deu sim tudo muito certo, se não tivesse dado estaria tudo muito pior-. Mas por via das dúvidas verificamos, de novo, os ritos de passagem de ano. Lentilhas, romãs, bagos de uva, carne de porco, nozes, avelãs, castanhas e tâmaras, na culinária; calcinhas e cuecas novas, roupa branca, uma peça amarela, lençóis novos para os recém-casados, no vestuário; afora pular sete ondas, dar três pulinhos com uma taça de champanhe na mão sem derramar, etc. E essa lista fica enorme. Mas, ano passado foi assim também. E no outro ano também fora assim. E nos outros, e em todos os outros. Por que então que, ao final de cada ano, tendo feito tudo pra que este ano fosse bom, próspero, com muita sorte e saúde, queremos que ele acabe logo, passe o mais rápido possível, para que então entre o ano novo, e na entrada, de novo, tudo outra vez seja realizado? Sabem por que? Porque cada vez mais valoriza-se somente os rituais que se tornam, a cada ano, vazios, sem sentido e estéreis.

 Há uma pergunta inquieta, que não cala: se tudo é feito conforme recomendações das tradições, dos costumes e das crenças, por que o resultado não corresponde ao empenho e a dedicação fervorosa de cada um? Por que falta algo? Mas o quê? Autenticidade. Quantos cearam com seus familiares ou parentes só porque assim manda a tradição? Quantos não presentearam somente porque este é um costume? Quantos se sujeitaram àquela reunião familiar enfadonha e com as mesmas estórias, por falta de opção? Já repararam como o clima de ano-novo é diferente do clima de natal? Por que será? Porque nas comemorações do ano novo escolhemos com quem vamos compartilhar nossos desejos, nossos sonhos, nossas fantasias enquanto que no natal há obrigações, e quantas obrigações. Do que comer, do valor mínimo do presente, de onde cear, de como se comportar…. Tédio. Vazio. Tristeza, angústia e depressão. Os significados e os conteúdos se perdem nos formalismos e nas aparências…

Se você não estiver disposto a olhar pra você, a se re-conhecer, a ser uma pessoa melhor a cada dia, de nada adiantaram, nem adiantarão, os rituais e as promessas que acabara de fazer. Não são os rituais que estão sem sentido, nem os anos que se repetem, nem são as pessoas que são chatas. Os rituais, os anos, as pessoas são e serão, sempre, reflexos de você.

Se não nos propusermos a nos tornar pessoas melhores, mais compreensivas conosco, com as demandas que fazem as nossas questões, com certeza, daqui a doze meses estaremos torcendo para que este ano que se inicia agora acabe rapidamente. E então estaremos, de novo, torcendo para o novo ano que se inicia e nele vamos depositar, de novo, nossos projetos, nossos sonhos, nosso futuro.

Está na hora de revermos isso para que as festividades natalinas e de ano novo não sejam um conjunto de obrigações, mal cumpridas na maioria das situações, e reveladoras das nossas incapacidades para nos relacionarmos bem e com maturidade, com as pessoas que nos são queridas, importantes e significativas. E isso só será possível quando nos dermos conta de que o futuro somente será melhor quando pudermos dizer uns para os outros, num abraço sincero, enquanto pessoas novas: FELIZ HOMEM NOVO!

Artigo publicado na revista VITRINE, janeiro de 2012, n. 26, ano 3 - www.revistavitrine.com.br


Silêncio


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foto Juliana Diniz
Eu ouço  o meu silêncio a me chamar
prá  revelar-me o que nunca ousei dizer
eu ouço minh’alma por mim clamar
prá ofertar-me uma possibilidade de vir-a-ser

 

Mas ouço também meus medos ao se inquietarem
por pressentirem em mim a perda de seus lugares
mas ouço também meus sonhos ao despertarem
vislumbrando possibilidades prá seus amores

 

Eu ouço o meu silêncio e minh’alma
gritarem mais alto que meus medos mais antigos
eu ouço o farfalhar dos meus sonhos desabrochando
prá um alvorecer calmo como o do botão de uma flor

 

Eu silencio e acalmo minh’alma
acalento meus medos e revelo-lhes meus segredos
um a um a medida em que se desvelam
acalento em meu colo meus sonhos e mostro-lhes um porvir

 

Eu ouço o meu silêncio a me clamar
prá contar-me de minh’alma redescoberta
eu me calo prá que em cantata o meu silêncio
possa prá mim minh’alma me revelar.

 

 


Entre Sins e Nãos


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foto Gilberto Rodrigues

Minha incompetência para dizer sim

é a mesma

e compromete-me se não digo não

não aprendi ainda a pronunciar estes vocábulos

e se me encabulo quando demandam

me calo

e no silêncio me sentencio

e se floreio rodeio e falo

a fala já se fez extemporânea

seus sons não se articulam

e por sobre o musgo consentido pela inércia

desenha-se a caricatura do que não sou

e tentando remediar o que fez-se irremediável

gaguejo consinto falo desminto

mas no fim do fio da voz

no último fiapo de fala

pressinto seu inalcançável sentido

e se grito assusto afasto paraliso

se sussurro a voz não alcança seu fim

então me acho só na solidão de mim

sem saber o que fazer com uma solidão assim

sem saber caçar-me por entre os emaranhados

de sins e de nãos senões talvez pode ser

e nessa incomensurável confusão

tomo um pelo outro

meto os pés pelas mãos

 me perco mais ainda

e desorientado recolho-me em minha clausura

e tranco-a trancafiando-me

com os ferrolhos da minha incompetência

consolo-me no soluço insano e infindo

temeroso dos dias mesmo se ensolarados e lindos

e das noites mesmo se com uma clara e bela lua cheia …


Sobre o Perdão


foto Gilberto Rodrigues

 

O que é exatamente o perdão?

O perdão é um ato de modificação de um sentido que fora dado a um fato, a uma circunstância  que tenha provocado mágoa, dor, angústia ou uma tristeza profunda. Perdoar é, em última análise, re-significar o passado. Não podemos alterar  os fatos que nos aconteceram no passado, mas podemos, com certeza modificar o seu significado, o seu peso, a sensação de dívida que aquele fato tenho deixado em nós. É verdade sim que os fatos passados são inalteráveis, não podemos desfazer o que fora feito, nem fazer de contas que o  que aconteceu não tenha acontecido. Mas o sentido que nós atribuímos ao que aconteceu, quer tenhamos sido nós a fazê-lo, ou tenhamos sido nós a sofrê-lo, pode ser a alterado, modificado. Ao alterar este fato, estamos perdoando.

Em que situação ele realmente acontece?

Ele acontece quando há uma predisposição, uma vontade, uma determinação, de quem pode perdoar, de assim fazer. O perdão é um ato de maturidade, de caridade. Perdoa quem busca compreender as razões, os motivos daquele que causou, digamos assim, a “ofensa”. Perdoar é um ato de dignidade, não um ato menor, de pequenez, de pessoas rancorosas e que entendem que ainda deve prevalecer a lei do olho por olho, dente por dente. Apenas os fortes perdoam. Os fracos ficam imaginando formas de vingar-se, de descontar, e o que estes não sabem é que só eles padecem com esta atitude e ficam ainda mais pobres. O perdão é um ato que liberta, um gesto que regenera quem perdoa perante si mesmo.

Algumas pessoas dizem que perdoaram, mas não esqueceram. Isso é possível?

Esquecer muitas vezes significa fugir, deixar de encarar o fato que carecia de perdão. O perdão não pressupõe o esquecimento. Costumamos esquecer o que tem pouca ou nenhuma importância. Não podemos imaginar que algo que tenha deixado marcas a ponto de exigir um gesto de perdão seja insignificante, seja sem importância. É importante nos darmos conta de que é muito provável que não tenhamos que esquecer quando perdoamos, mas que nos lembraremos daquilo que fora perdoado com outros olhos, de um outro modo, com um outro significado. Ao perdoar podemos voltar ao convívio. O esquecimento leva ao afastamento pois a cada reencontro a lembrança será ativada, enquanto que no perdão, a presença é possível pois será, após o perdão, re-significada. O passado não foi modificado mas o sentido dado ao que ocorrera é novo. Isto é perdoar. Esquecer é jogar debaixo do tapete, e isto não modifica o sentido de nada, não altera nada, não re-aproxima as pessoas. E aqui reaproximar pode ser visto como reaproximar do outro ou de mim mesmo.

 Quais são os principais benefícios do perdão?

Os principais benefícios do perdão são a paz, a harmonia, a concórdia entre os povos. Sejam estes povos os de uma nação, sejam estes povos os vizinhos de uma rua ou  queles que convivem numa mesma casa. O perdão faz com que a pessoa que perdoou, ao re-significar o que lhe tenha causado dor e sofrimento, ou re-significar a dor e o sofrimento que tenha causado a si mesmo ou a outrem, possa ficar em paz consigo mesma.

 Por que é tão difícil perdoar?

 Porque ainda estamos pouco evoluídos para as relações humanas. Não podemos nos esquecer que ainda há poucos séculos as pessoas falavam muito mais em fazer com que quem cometesse um erro pagasse do que tentar uma compreensão para o que havia acontecido. Perdoar  significa olhar para o outro também, buscar compreender as razões dos desmandos cometidos pelo outro. Não quer dizer aceitação, mas compreensão. O fato de perdoar não significa aceitação ou concordância.

 Fale sobre a re-significação do passado. De que maneira isso ajuda a pessoa a perdoar aos outros e a si mesma?

Re-significar o passado é tentar olhar para o que houve de um outro modo, por um outro ângulo, por uma outra ótica. Isto significa a compreensão de que há outros pontos de vista para se olhar um mesmo fato, uma mesma coisa. Se a pessoa entender que o seu modo de ver o mundo é o único que está certo esta pessoa terá dificuldades para re-significar alguma coisa que lhe tenha causado amargura, dor, sofrimento. Isto ajuda a pessoa a ser mais tolerante e compreensiva com os outros e consigo mesmo. São pessoas que sofrem menos. Ao contrário, aquelas que têm dificuldade de olhar o mundo por um ângulo que possa não ser o seu são pessoas amargas, rancorosas, ranzinzas e normalmente amargam a solidão de conviverem consigo mesmos e com o seu rancor pois se tornam insuportáveis para o convívio. Re-significar o passado só ajuda. Mas é preciso coragem, humildade e determinação para fazer isso. Só os fortes perdoam. Os fracos se escondem atrás da própria covardia e entendem que só eles estão certos. Quem não perdoa vive só.

Alguns especialistas afirmam que o perdão faz bem à saúde. Você concorda com essa afirmação. Por quê?

Sim. Faz muito bem à saúde. Tanto física quanto psíquica. Porque perdoar é livrar-se de um incômodo silencioso e persistente que acompanha aqueles que não perdoam, ao longo da sua vida. Este incômodo faz mal a quem o carrega, a quem o alimenta, a quem o sustenta. Perdoar é livrar-se deste amargor. Seja perdoando ao outro, seja se perdoando. O efeito do perdão é o mesmo, seja para si mesmo, seja para o outro. O passado que precisa ser re-significado não tem dono. Pode ser o meu, o seu  ou o nosso, e carregar rancores por conta de um modo de decifrá-lo é sofrer, é carregar dores que nos impede de ver com olhos livres de amargor, o presente.

 É possível perdoar o outro sem se perdoar?

Entendemos que não. Só quem perdoa pode re-significar o passado, dar um novo sentido a algo que ocorrera e causar dores, amarguras, incômodos e pesares. Como podemos imaginar alguém re-significando algo se não olhar para dentro de si mesmo. Quem perdoa o outro com certeza sabe perdoar-se. Poderíamos dizer o seguinte: quem não sabe se perdoar, não sabe perdoar o outro.

 Perdoar é um exercício?

Sim, perdoar é um exercício. Um exercício que, para aqueles que acreditam no perdão, na nobreza deste gesto, deste ato, desta conduta, deve ser praticado quotidianamente. O mundo em que vivemos hoje está nos colocando o tempo inteiro diante de novos modos de olhar os fenômenos que circunscrevem o nosso dia-a-dia.Mais do que nunca  da coisa pode ser vista de vários modos. As informações disponibilizam novos modos de olhar para as coisas que nos cercam, que nos acontecem. Por isso podemos estar o tempo inteiro sendo requisitados a rever nossos pontos de vista, nossas óticas, a re-significar.

Por que algumas pessoas têm mais facilidade para perdoar que outras?

É importante considerarmos uma coisa. Ainda há muita gente que entende o perdão como um ato fraqueza e não como um gesto de nobreza possível apenas para os fortes. Há fatores culturais, que não dá para abordar neste ocasião, que instigam as pessoas a uma valentia e a uma busca de certeza como significado de ser forte. Além disso somos um povo ainda frágil com relação aos valores que sustentam as relações entre pessoas, a natureza, o mundo. Ainda temos uma parcela significativa da nossa sociedade que vive sob a égide da lei de Gerson. De que o importante é levar vantagem em tudo. É só vermos o noticiário para ver com agem os nossos representantes de modo geral. Ao mesmo tempo ainda se pensa que perdoar é voltar atrás, é ser fraco, é ser bobo quando é exatamente o contrário. Isso quer dizer que ainda devemos falar muito de perdão para que este valor, este fenômeno, genuinamente humano, possa ser visto como algo nobre, que valha a pena. Além disso é importante considerarmos a estrutura psíquica e emocional de cada sujeito. Porque ela também  influencia a maneira ver e de se relacionar com o mundo.  E esta estrutura decorre em parte do nosso processo de formação, da nossa educação para a vida. É necessário ainda considerarmos a necessidade do auto-conhecimento, pois é na maturidade que o perdão pode desabrochar. Há algo que de tão óbvio não damos conta muitas vezes: só enxergamos com os nossos olhos. Sendo assim precisamos cuidar para podermos olhar cada vez melhor o mundo, cuidar de nós mesmos, do nosso modo de olhar. Por estas razões algumas pessoas têm mais dificuldade e outras mais facilidade para falar e praticar o perdão. Você consegue imaginar um troglodita perdoando? Ou aquele que se acha dono das verdades do mundo? Perdoar é para os nobres de alma e de espírito, para aqueles que estão se encaminhando para uma maturidade emocional, para uma nobreza de propósitos, para se tronarem, de fato, seres humanos.

Artigo publicado na revista VITRINE, dezembro 2011, n. 25, ano 3 - www.revistavitrine.com.br


Feliz Ano Novo!


foto Gilberto Rodrigues

O futuro será conseqüência

da nossa alienação

ou da nossa consciência.

 

A resistência pra enfrentarmos os caminhos que escolhemos e que desejamos fazer depende do nosso preparo. Nada é mágico ou acontece sem empenho, dedicação persistência e uma boa dose de paciência.

Que 2012 seja, para cada um de vocês, meus amigos de coração, de fé ou virtuais, uma possibilidade de realização dos seus sonhos e seus projetos. Temos que, para  convivermos em harmonia e paz, nos embrenharmos por trilhas as vezes tortuosas ou que nem nos apercebemos que por ali nos embrenhávamos. Mas para chegar onde traçamos como objetivo precisamos trilhá-las. Lute a luta de um homem só, pois só você pode fazer o seu caminho e realizar os seus sonhos.

O vôo de cada um será na altura que se preparar para realizá-lo. Esse vôo tem regras próprias, alturas próprias, e exige que cada um que pretenda realizá-lo saiba pra onde está indo e porque está indo.

Voe, voe em busca dos seus sonhos, e com certeza eles estarão a sua espera, pois você  os constrói a cada dia. Se você os deseja é porque eles existem. Voe até encontrá-los, depois regozije-se e seja muito feliz.

Feliz 2012.  Se ainda não estiver preparado para alcançar os seus sonhos lembre-se que o mundo não acaba amanhã. Prepare-se então durante este ano que se inicia para que em breve possa realizá-los. Não desista deles, são seus e só  você pode fazê-los desabrochar.

Os seus sonhos estão a sua espera. Para alcançá-los basta a sua ousadia…

carinhosamente,

Gilberto Rodrigues