Um Jardineiro Angelical


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Um anjo plantou uma roseira em meu jardim
E ao romper da aurora foi-se embora com a lua branca
Deixando-a prenhe de amor em meu colo a germinar
Deixando-me enquanto promessa
Eu como única possibilidade de mim
Sequer perguntou-me se já fora um dia um jardineiro
Sequer deixou-me instruções para cuidá-la assim

 

Vi-me então sem chão seu chão sua seiva e seu destino
Vi-a crescendo em mim com a calma quotidiana do entardecer
Amanhecido ia sempre a saudá-la em desatino
Com o desejo de decifrar seus segredos e seu crescer
Com o desejo de vê-la um dia se realizando em botão

 

Seu desabrochar ignorava a pressa e os desejos do meu coração
Fiz-me cuidado para cuidar-lhe apesar dos espinhos
Tornei-me brisa água acalento sustento pro seu pulsar
Fertilizava suas raízes orvalhava suas folhas e ramagens
Esperando que um dia me acenasse desabrochado um botão

 

Não sei qual fora o tamanho do meu descuido
Ou quão enorme terá sido a minha rendição
Mas numa manhã misturando suas cores com as do sol
Pétalas orvalhadas desabrocharam rubras para mim
Descobri então em meio àquele jardim de uma flor só
Que ser jardineiro não é mais o que eu quero ser
Uma rosa angelical ensinava-me então ao meio dia
Em meio à alegria de um desabrochar inexplicável
Que bastará agora que a cultive em mim com todo o meu amor
Pois o entardecer se vislumbra diante dos meus olhos

 

Até vir a noite calma e pousar mansa a sua luz
Cuidarei da rosa desabrochada do seu destino e sua cor
Até que transformado em amor fecundarei minha alma
Para então sem dor sem sonhos promessas ou lembranças
Despertar-me no colo do universo que me espera fértil dentro de mim.
 
 

Da Alma do Direito ou A Psicologia do Direito


Entrevista concedida à TV Câmara Taubaté sobre o meu livro, recém lançado, DA ALMA DO DIREITO OU A PSICOLOGIA DO DIREITO.

[ Este livro pode ser encomendado junto as melhores livrarias do país ou diretamente junto a editora através do E-mail comercial@letrasjuridicas.com.br ou através dos telefones 11|3107.6501 ou 11| 9352.5354]

Clique neste link para ver:

http://www.camarataubate.sp.gov.br/tv-camara/tv-camara-entrevista/163/gilberto+rodrigues+-+psicologo


O Caipira


foto Gilberto Rodrigues

Busquemos a origem do termo, sua etimologia. Sabe-se que é uma palavra de origem Tupy e quem apresenta a definição que me parece a mais aceitável é o ilustre Teodoro Sampaio no seu livro “O TUPI NA GEOGRAFIA NACIONAL”[1], onde define Caipira como “o envergonhado, o tímido”.

Esta definição se repete basicamente em todos os autores que tentaram definir o termo. Por exemplo, Câmara Cascudo[2] nos oferece a seguinte definição: “Homem ou Mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato  social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público”.  Uma outra conceituação é de Beaurepaire-Rohan[3], no livro Dicionário de Vocábulos Brasileiros, RJ, 1889: “ Nome que se designa o habitante  do campo. Equivale a labrego, aldeão, e camponês em Portugal, …”, mais uma definição: “Caipira é o matuto, o roceiro que ainda não se deixou tomar pelas maneiras da cidade.”[4]

             Poderíamos inserir mais uma dezena de definições, mas, como se pode perceber nas citadas, todos vão se assemelhando e dizendo a mesma coisa. É, a meu ver, importante considerar que todas as definições e estudos que foram publicados até hoje margeiam suas definições muito mais pela geografia e pelo jeito “caricato” do homem do campo do que por uma análise de comportamento, estrutura de personalidade e, principalmente, valores deste cidadão brasileiro que se chama Caipira, ou que chamamos Caipira.

            Creio sim, que a Geografia do caipira enquanto determinante da sua origem seja fundamental, mas o que quero ressaltar é o que sobrou, tão entranhado, com tamanha profundeza, na alma do homem que hoje denomina-se e é chamado caipira e que o faz tão rico, original e, creio, indestrutível. A Geografia, para uma definição atual, caducou. Encontramos caipiras em todos os cantos do Brasil e em muitos do mundo afora. Encontramos o Caipira nas grandes cidades, com títulos Universitários os mais altos, e o encontramos também no campo, nos rincões e roças deste nosso “brasilzão”. E aí vem um dado que gosto de observar. O Caipira da roça, semelhante àquelas definições que já vimos, tem uma parecença fantástica com o caipira urbano, usando terno e gravata e falando fluentemente vários idiomas. Isto me leva a afirmar que ser caipira hoje não é mais uma questão de Geografia, de forma de se vestir ou de jeito de falar mas sim um Estado de Alma.

Ser Caipira

é ser dum jeito que num tem explicação

é Ter no fundo d’alma

e nas profundezas do coração

um senso que só tem

a própria essência do sertão”[5]

             O caipira estabelece modos e linguagem peculiares, porém sem contudo impor alguma coisa, algum ritual, alguma adesão. Caipira é algo que se é ou que se aprecia. As modas de viola, entoadas na viola caipira, falam dos amores e do belo. Os causos são estórias com uma simbologia e significados importantes e profundos. A saudade é mais que uma recordação de uma infância ou de uma época. É a vontade de viver segundo princípios e valores que são próprios do caipira e que todos hoje desejaríamos fossem valores de todos nós. Estes valores são enraizados na observância das leis da natureza, no seu respeito e nas suas particularidades. Então ser caipira, antes uma questão de geografia, hoje é uma questão de valores e modos de ser, de pensar e de agir. Ser caipira é saber ser em comunhão com a natureza, é render-se a seus tempos e a suas estações, respeitá-la em sua originalidade e na singularidade de cada um, é cultivá-la para que floresça e dê frutos saudáveis e viçosos. Enquanto a gente espera a semente germinar, o tempo de colher, de arar, de fecundar o chão ou o coração, entoamos modas de viola, contamos “causos”, dançamos catira, ponteamos uma lua cheia…



[1] 4ª edição, da Câmara Municipal de Salvador, 1955.

[2] Dicionário do Folclore Brasileiro, Ed. Melhoramentos, 4ª edição, 1979.

[3] In Câmara Cascudo, op. citada

[4] Silveira Bueno, Professor Emérito da USP, no seu VOCABULÁRIO –Tupi-Guarani Português, Éfeta Editora, 6ª edição, 1.998.

[5] Rodrigues, Gilberto – do Poema Ode ao Caipira, do Livro “Carreando História – Poesia Caipira”

 

Artigo publicado na REVISTA VITRINE, abril 2012, n0. 30, ano4 - vitrinerevista@terra.co.br


Lançamento do livro “Da Alma do Direito ou A Psicologia do Direito”, em TAUBATÉ, dia 25/4


      

               

Apresentação do Livro

 Eu quase nada sei. Mas desconfio de muita coisa.
O senhor me concedendo, eu digo:
 para pensar longe sou cão mestre – o senhor solte à minha frente uma ideia ligeira,
eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!

 João Guimarães Rosa

         Esta obra propõe uma reflexão sobre o Direito, sua aplicação, como é ensinado e aprendido atualmente e o seu descompasso com o processo de desenvolvimento, de evolução e de aperfeiçoamento de outras atividades científicas e, principalmente, com relação a sua incapacidade para atender às demandas da sociedade.
          Realça a necessidade de voltar-se para um Direito vívido, com alma, e que se fundamente numa prática transdisciplinar e se desenvolva, desde sua formação até o seu pleno exercício, sob a chancela do Paradigma do Conhecimento que valoriza o conteúdo, o conhecimento e o Operador do Direito, o Jurista, e não como vem se desenvolvendo há séculos, priorizando somente o resultado formal e superficial, obediente aos pressupostos do Paradigma da Informação.
           A Alma do Direito está enferma. A Psicologia pode e deve socorrê-la em prol da sociedade que está órfã de um Estado que, mesmo valendo-se de um Sistema Jurisdicional estruturado, não está conseguindo tornar-se de fato e de modo eficaz um disciplinador da convivência e do comportamento humanos. 
          A sugestão ora apresentada pode tornar-se inovadora e vir a ser uma solução. Somente um Direito com Alma pode impedir a descrença da sociedade na capacidade do Estado para protegê-la e para zelar pelos caminhos que tem que trilhar na realização da sua individualidade.
         O abandono do Estado pode consentir, tacitamente, num retrocesso civilizatório e autorizar a pessoa a buscar solução para suas demandas a seu modo e com seus instrumentos e técnicas. A queixa com relação ao distanciamento entre o Direito e o indivíduo na sociedade é antiga — tem quase a idade do Direito — e as providências para sanar essas queixas têm-se apresentado ineficazes.

 O Autor

Prefácio

             Um livro que nos convida a pensar e a agir.

            Irreverente, densamente crítico, provocante.

            Gilberto de Castro Rodrigues constrói, com belíssima estética e rigor analítico, uma intensa reflexão sobre o papel da educação, em particular da (de)formação do bacharel em Direito, e do que se desdobra posteriormente junto à vida dos profissionais da área jurídica – advogados, promotores, juízes e professores – no Brasil do terceiro milênio.

            Um convite a pensar o quanto permanecemos, a despeito de diferentes roupagens, outros vernizes, novéis cascas, na mesma ambiência de poder nutrida pela sobrevalorização da informação que apenas renova sistemas punitivos e amplia o abismo entre a enregelada realidade e o ideal de fraternidade que se aspira realizar com a contribuição do Direito. O alcance de um “Direito preventivo” demanda, afirma o autor, que ele seja “prenhe de alma”. Sem esta transformação, sem vida, apenas se renovam as vetustas concepções de controle e vigilância, prenhes de orgulho, do panóptico de que nos fala Michel Foucault[1], da figura do “jardineiro” que discorre Zygmunt Bauman[2].

            Propõe o autor então uma mudança de paradigmas. Gilberto Rodrigues evidencia a tensão entre o conhecimento, recurso ao verdadeiro saber, distante do poder, e a informação. Assevera que o paradigma do conhecimento é o caminho à formação dos profissionais do Direito enquanto “agentes da paz”. Para isto, é preciso que as escolas realizem-se com a contribuição de todos, professores e alunos, e igualmente dos demais funcionários, “Uma Escola onde todos ensinem e todos aprendam”, em suas próprias palavras – e o que ele defende deve ser pensado não só em relação às faculdades de Direito, mas do mesmo modo às escolas das carreiras públicas.

            Thomas Kuhn, físico teórico e consagrado filósofo das ciências, legou-nos um clássico, A estrutura das revoluções científicas. Nesta obra diz o pensador que o efetivo progresso da ciência não decorre só do acúmulo gradual de dados amealhados, mas sim das revoluções do pensamento científico que se consumam em momentos de crise e levam os cientistas a modificar seus paradigmas. A par do desenvolvimento normal da ciência há então o revolucionário, e enquanto aquele evolve sob uma concepção cumulativa, a revolução pressupõe “um modo não-cumulativo” e exige a alteração do modo de pensar e descrever um conjunto de fenômenos naturais[3]. As mudanças revolucionárias, portanto, “(…) são, de certa forma, holísticas. Isto é, elas não podem ser feitas gradualmente, um passo de cada vez (…)”. As revoluções implicam “mudança de significado”, um modo diverso de as palavras e expressões associarem-se à natureza, e ainda o conjunto de objetos e situações que se relacionam com os termos que os designam[4].

            É o que propõe Gilberto Rodrigues: uma revolução por mudança de paradigmas. Não é mais suficiente, segundo ele, a manutenção da rebarbativa taxonomia dos métodos de ensino, atualizados por recursos tecnológicos e com aparente progressividade, mas que em grande medida apenas aprofundam a distância do conhecer-se, do ser, em prestígio do ter.

            Da Alma do Direito ou A psicologia do Direito faz coro a reflexões de extraordinários pensadores, portanto. Lembro Erich Fromm que acentua: “Conhecer não significa estar de posse da verdade; significa penetrar além da superfície e lutar crítica e ativamente a fim de se aproximar cada vez mais da verdade”[5]. Em outra sublime passagem na qual trata do ser e do ter especificamente junto à educação ele faz judiciosas críticas que bem introduzem o que pretende Gilberto Rodrigues. Diz Erich Fromm:

Os estudantes, no modo ter, só têm um objetivo: contemplar o que eles ‘aprenderam’, ou fixando-o firmemente na memória ou conservando cuidadosamente suas anotações. Não têm que produzir ou criar algo de novo. De fato, o indivíduo do tipo ‘ter’ sente-se até perturbado por novos pensamentos ou ideias sobre um assunto, porque o que é original põe em questão o acervo fixo de dados que ele possui. Na realidade, para aquele cuja principal forma de relacionamento com o mundo é o ter, as ideias que não possam facilmente ser enfeixadas (ou anotadas) são assustadoras (…).

O processo de aprendizagem tem uma qualidade totalmente diferente para estudantes no modo ser de relacionamento ‘com’ o mundo. (…) Eles pensaram antes nos problemas de que tratarão as conferências e levam em mente algumas questões e problemas próprios. Ocuparam-se do tópico e ele lhes interessa. Em vez de serem receptáculos passivos de palavras e ideias, eles prestam atenção, ‘ouvem’, e, mais importante, ‘recebem e reagem’ ativamente de modo produtivo. Aquilo que ouvem estimula seus próprios processos de pensar[6].

            Mas a revolução proposta por Gilberto Rodrigues deve orientar-se às instituições de ensino, à docência. Afinal, provoca o autor, “Quem brinca de tocar piano é vaiado. E quem brinca de ser jurista?”.

            Enfim, a educação. A formação pelo conhecer – a si próprio, primeiro, ao outro como razão de ser o que se deve fazer.

            Educação que necessita da transdisciplinaridade. Pois sem ela não há espaço a perceber o mundo à nossa volta, não nos damos conta de que a solidez da modernidade iniciou sua fragmentação, e a contemporânea “pós-modernidade” – ou modernidade reflexiva (Ulrich Beck), modernidade líquida (Bauman), hipermodernidade (Lipovetsky) – reclama a superação de dogmas não mais suficientes.

Como afirma Eduardo C. B. Bittar:

Ao se enfrentar o tema da pós-modernidade, dar-se-á clara importância às diversas crises surgidas em seu contexto, bem como às crises que lhe ocasionaram o surgimento. A crise que mais de perto se estará a discutir é aquela referente à eficácia do direito, pois de nada adianta pensar-se no direito como regra de dever-ser (Sollen) isolada do ser (Sein), na medida em que a distância entre os altiplanos das normas protetivas de direitos fundamentais da pessoa humana se encontram impossibilitadas de serem colocadas a serviço da maior parte da população, e na mesma medida em que as próprias políticas públicas se convertem em ações episódicas incapazes de perpetrar seus efeitos práticos, produtores de justiça social, sobre a vida do mais mortal dos homens[7].

            A eficácia de um Direito com alma depende da formação dos seus profissionais. Que abandonem a “cultura-jardim” – “(…) o propósito da educação é ensinar a obedecer”[8]–, dispensem-se da postura de legisladores, e apresentem-se como intérpretes, tal como sugerido por Zygmunt Bauman: “(…) especialistas em tradução entre tradições culturais. (…) Trocando em miúdos, a especialização proposta se resume à arte da conversação civilizada”[9].

            Outros paradigmas, então. Tal como propõe Boaventura de Sousa Santos, do conhecimento-regulação cuja referência do saber é a ordem e da ignorância é o caos a um conhecimento-emancipação no qual a ignorância é o colonialismo e o real saber a solidariedade[10] – o que exige aceitar “um certo nível de caos” ao relativamente ser negligenciado o conhecimento-regulação[11]. É o multiculturalismo de que fala este sociólogo que se encontra na proposta de revisão da formação acadêmica defendida nesta obra que prefacio, do paradigma da informação ao paradigma do conhecimento.

            Gilberto Rodrigues, à força de verve envolvente, ácida e docemente crítica, um oximoro que incomoda porque questiona nossas práticas habituais, convida-nos a pensar com a sublimação dos nossos preconceitos – ou ao menos momentaneamente os pondo de lado. O que é, ou o que pode ser um Direito com alma? Como nos capacitamos, e sobretudo remodelamos, a estrutura pedagógica com vistas à (trans)formação de nossas humanidades, de um Direito para e com a paz?

            Se Freud entende a modernidade como a superação do princípio do prazer, de parte da felicidade e da liberdade, para o predomínio do princípio de realidade no qual a causa e o escopo são o prestígio à segurança – com as consequentes privações dos nossos “impulsos naturais” que resultam nas doenças da alma –, Herbert Marcuse[12] diverge desta refutação à possibilidade de uma sociedade não-repressiva. A abolição da repressão – marco da modernidade – é possível. Os dois planos de Freud – ontogenético: a evolução do indivíduo reprimido; filogenético: a evolução da civilização repressiva – desenvolvem-se sob implicações mútuas, o que leva ao abandono da felicidade e à geração do sentimento de culpa. Para Herbert Marcuse, o princípio de realidade deve ser compreendido como o princípio de desempenho que se formata pela dominação e a alienação que se encontram na organização social do trabalho, mas é possível reformulá-lo de modo a ser “(…) qualitativamente diferente e não-repressivo”[13]. A redução quantitativa da energia de trabalho, a superação dos controles repressivos impostos pela civilização (moderna) à sensualidade, são alguns dos caminhos necessários[14] em busca de uma “cultura não-repressiva”, pensada por Schiller, conforme anota Herbert Marcuse[15].

            Neste específico contexto as ideias de Gilberto Rodrigues pretendem contribuir a repensar a atividade laboral do operador do Direito, a uma diferente percepção da função social das profissões relacionadas com o meio jurídico, às potencialidades do ser humano enquanto agente transformador da sociedade e imediatamente responsável por si e pelo próximo.

            Pode o leitor substancialmente divergir dos argumentos, perspectivas e propostas apresentadas, mas me parece insuperável reconhecer que as reflexões deste livro, consubstancialmente elaboradas, fazem pensar. Convidam a conhecermo-nos, a conhecermos os outros, e quem sabe, a quem a elas aderir, ao agir.

                        Luis Manuel Fonseca Pires.

                        Juiz de Direito noEstado de São Paulo.

                        Doutor e Mestre em Direito Administrativo pela PUC-SP.

                        Professor de Direito Administrativona  graduação e na pós-graduação lato sensu 

                        da PUC-SP.


[1]O panóptico, projeto arquitetônico concebido pelo filósofo Jeremy Bentham no século XVIII, pretendia permitir a um vigilante posto em região central do prédio simultaneamente observar todos os usuários em suas constantes atividades. Serviria à prisão e ao manicômio, e ainda à escola, ao hospital e à fábrica. Michel Foucault utiliza a expressão para analisar a “sociedade disciplinar” que se edifica e consolida-se nos séculos seguintes (Vigiar e punir, 38ª ed., Vozes).

[2] Diz o autor: “O poder que preside a modernidade (o poder pastoral do Estado) é moldado segundo o papel do jardineiro. A classe dominante pré-moderna era, em um sentido, um guarda-caça coletivo. A passagem para a modernidade foi um processo no decurso do qual o primeiro emergiu e o segundo declinou, sendo no final substituído” (Legisladores e Intérpretes, Zahar, p. 79). A “cultura-jardim” da modernidade centra-se no poder social de controle do tempo e do espaço, na dominação.

[3]O caminho desde a estrutura, 9ª ed., Perspectiva, p. 24-25.

[4] Op. cit., p. 41-43.

[5]Ter ou ser?, 4ª ed., LTC, p. 56.

[6] Op. cit., p. 47.

[7]O Direito na pós-modernidade, Forense, p. 8-9.

[8]Zygmunt Bauman, op. cit., p. 107.

[9] Op. cit., p. 197.

[10]A Crítica da Razão Indolente, 7ª ed., Cortez, p. 29.

[11] Op. cit., p. 79.

[12]Eros e Civilização. Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, 8ª ed., LTC.

[13] Op. cit., p. 123.

[14] Op. cit., p. 169

[15] Op. cit., p. 174.

 

 

 


Sobre a Mentira


foto Gilberto Rodrigues

Tarefa árdua a de construir uma reflexão sobre este tema. Embora presente em nossas vidas desde a mais tenra idade quando, crianças ainda, somos alertados para não mentir pois é feio, é pecado, papai e mamãe ficam tristes, as pessoas não gostam, deus castiga, a mentira ou a tentativa de sua evitação é algo que entremeia as relações humanas o tempo inteiro. Seja a mentira que pronunciamos, seja a mentira que somos.

É importante distinguirmos estas duas formas de mentira. Uma, a mentira que pronunciamos quando, de posse de uma verdade, a ocultamos. Outra, a mentira que temos que nos tornar para nos adequarmos as demandas que nos impõe o mundo civilizado, o mundo das relações humanas. A nossa sociedade.

No primeiro caso a essência da mentira está no fato de que o mentiroso esteja consciente da verdade, que saiba qual é a verdade que esconde ou deseja esconder. Não se mente sobre o que se ignora. Pouco importam as razões ou os objetivos pelos quais se mente. Pode ser para se defender, para ludibriar, para tirar algum proveito. Em qualquer destes casos é necessário, para que se caracterize um ato de mentira, que o mentiroso saiba sobre a verdade que está escondendo. Não se caracteriza como mentira o que é dito a partir do desconhecimento ou da incerteza. O mentiroso, ao mentir tem uma disposição íntima para querer esconder a verdade do seu interlocutor. A mentira pressupõe, sempre, a presença do Outro. Presume a existência do Outro para mim e de mim para o Outro. Isto significa que ao mentir há uma intenção, um propósito. Um objetivo. Não há mentiras por descuido. Não falamos aqui do mentir para si mesmo, do auto-enganar-se, pois esta é uma questão de outra ordem e que poderá ser objeto de reflexão em uma outra oportunidade.

No segundo caso, um pouco mais complexo – sobre a mentira que somos – é necessário que compreendamos que não somos possuidores, portadores, de uma identidade, mas que, desde quando nascemos temos que ir nos identificando com o Outro, com os outros que estão ao nosso redor quando iniciamos nosso percurso na vida. Nascemos em uma sociedade já constituída, com um modo próprio de estabelecer as suas relações, ou seja, em uma cultura estabelecida, determinada há muitos séculos e ao nascermos, para a nosso sobrevivência física e psíquica, precisamos nos adequar a esta sociedade. Esta adequação se dá a partir das identificações que vamos realizando enquanto inseridos nas estruturas da família, da escola, das instituições religiosas, e de outros grupamentos constituídos e aceitos socialmente e nesta adequação vamos perdendo algo que é nosso, que  é próprio, ou seja, uma completude original. Abdicamos desta para nos tornarmos um sujeito a partir das identificações que vamos realizando no nosso processo de estruturação psíquica. Criamos uma imagem de quem somos, mas quem de fato somos não sabemos pois tivemos que abdicar da nossa totalidade individual para realizarmos as identificações que pudessem nos fazer aceitos para então, sermos inseridos no contexto de mundo já estruturado, já estabelecido. Então, quem somos nós? Somos de fato quem pensamos ser? Ou o que achamos que somos, é uma mentira pois ao realizarmos desde o nosso nascimento nossas primeiras identificações vamos perdendo nossa identidade original para garantirmos uma melhor adequação a este mundo já estabelecido, já estruturado. Não temos consciência destas identificações que fazemos, nem do modo como as fazemos, como não conseguimos saber com o que ou com quem fomos nos identificando. Porém é importante estarmos atentos para o fato de que se para nos adequarmos, ao irmos realizando nossas identificações, abdicamos em demasia de nós mesmos, mais do que uma mentira deixamos simplesmente de Ser. Morremos enquanto sujeito, enquanto indivíduo, enquanto pessoa com um conjunto de identificações que nos caracteriza. E é este conjunto de identificações o que nos individualiza, que nos possibilita um nome, um lugar único nesta sociedade organizada dos seres humanos. Embora individualidades, não temos uma identidade até porque esta vai sendo alterada ao longo do percurso da vida que vamos construindo no nosso dia-a-dia. Então, o que somos? Quem somos? Somos mesmo uma mentira?

Considerando pertinentes estas observações de que mentimos para esconder a verdade, ou que nos escondemos enquanto verdade para podermos nos adequar a esta sociedade estruturada torna-se necessário e urgente refletirmos sobre, se mentimos, ao mentirmos, o que estamos de fato buscando. Será que a mentira pode ser uma forma de busca para a adequação, para a aceitação? Cabe-nos ainda perguntar o quanto devemos continuar nesta busca incessante de identificação para que sejamos aceitos. Parece-me que o caminho para quebrarmos esta busca constante e interminável de adequação é olharmos para as questões que mais nos incomodam enquanto quem tem que estar o tempo todo adequado. Quebrar este processo é buscar o autoconhecimento.

A mentira pode ser uma aliada enquanto reveladora das nossas verdades. Se no primeiro caso mentimos pra esconder, sabemos da verdade ocultada. Podemos então nos perguntar por que a mentira pode ser mais produtiva, mais eficaz que a verdade. Esta pergunta talvez já nos encaminhe para relações mais verdadeiras. No segundo caso, se para sermos aceitos temos que perder parte da nossa individualidade, a saída talvez seja repensarmos o que queremos ser e se precisamos continuar indefinidamente na busca pela identificação para garantir que, por sermos bem adequados, nossa sobrevivência será mais feliz.

Ambas as respostas passam pelo caminho da busca pelo autoconhecimento. É um caminho tão árduo quanto o do exercício da verdade


Cores do Entardecer


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Uma pipa solta no céu

Equilibrando suas cores

Aos sabores dos ventos

Embala na ponta da linha

Uma criança livre no chão

Equilibrando nas pontas dos dedos

Os seus sonhos de Ser feliz.

.

.


Incertas respostas…


foto Gilberto Rodrigues

 

 

 

 

.

Há certas perguntas
Que como lâminas afiadas
Frias e impiedosas
Decepam-me as pernas

 

Preferia não tê-las ouvido

 

Respondê-las é o que me resta
Enquanto possibilidade
De reconstruir minha estrada

 

Respondê-las é catar os cacos
Que ladrilham disformes e ilógicas
As nuanças do meu caminho.

Escolhas


foto Gilberto Rodrigues
 
 
 
 
 
  
Se te sentires presa a mim
Seja por um segundo sequer
Por mais que me possa doer
Imploro-lhe não fiques comigo
Pois não saberei te acolher
Como uma mulher aprisionada
 
 Se sentires necessidade de mim
Seja por uma coisa pequenina
Por mais que me possa doer
Imploro-lhe não fiques comigo
Pois não te saberei saciar
Nem compreender as suas necessidades

 

Se quiseres pra viver um grande amor
Pra completares tua experiência de vida
Um grande homem ou um homem qualquer
Imploro-lhe não fiques comigo
Pois não saberei te ofertar nada meu amor
Que não seja tão somente meu jeito de ser

 

Se te sentires aprisionada de repente
Porque o amor lhe parece uma prisão medonha
Por mais que eu tente desmenti-la
Imploro-lhe não fiques comigo
Porque o amor que tenho pra te ofertar
Te quer livre na liberdade do que é amar.

 

 

De faltas & sobras


foto Gilberto Rodrigues

Dá-me tua mão
mesmo se enxergá-la ou senti-la
não consegues
esta mesmo a acenar inquieta por não ser
nem se saber não sendo
para afagar completamente
os desejos insabidos do meu coração.
 
Consinta-me tua mão
e assim me tornarei teu amante.
 
Olha depois meu amor pelas frestas
que sobrarem entreabertas
se permitir a tua história
e vê se descortinam inertes
teus olhos turvos e vazios -
vazios de mim se porventura
entusiasmam teu coração.
 
Vejo em tua alma
muito mais que tu
e é exatamente esta sobra,  esse isso
o fascínio do meu desejo.
 
Não sabes o quanto tens para me ofertar
e por realmente de ti nada teres
para de fato poder me oferecer
te amo com a certeza de um nada sei.
 
Se me deres é porque não possuis
se possuísses, não me daríeis.
 
E enquanto não te enxergar
continuarei com intenso fervor
pleno de amor pra poder te amar.
 
Para sermos por instantes felizes
aceita minha mão mesmo se não a oferto
o coração mesmo se não o ofereço
esse amor se eu pudesse te pediria…
Vê se enxerga saindo do meu coração
uma – inexistente – mão a te buscar
nada sei dessa mão pois são  mãos de mim
 e eu nada sou nem nada eu tenho.
Se entrelaçarem-se essas nossas mãos
afáveis firmes e convictas do que sentem
acalentados ficarão talvez nossos corações.
 
Amantes nos tornaremos incontinentes
por instantes infindos nos vazios de nós.
Nos amaremos pois não temos um saber
sobre o amor seus prazeres seus sabores
as dores nem os odores
e por não termos vidas nem nada a oferecer
nada que possamos perder
poderemos nos possuir poderemos ser
no vazio pleno
de uma possibilidade de amar.
Amando não seremos
poderemos então nada sendo
sermos livres para o amor.

O adulto é filho da criança!


scoloquial.blogspot.com

Estamos num mês onde os preparativos para a volta as aulas mobiliza toda a nossa sociedade. Escolas sendo reformadas para receber alunos, pais se organizando para seus filhos irem a escola, meios de transportes se preparando para facilitar a vida dos pais…

Olho para tudo isso e me pergunto: Estão pensando de fato no processo de educação de nossas crianças, ou tudo isso é para facilitar a vida dos adultos? Financeiramente para os empresários da educação, funcionalmente para os transportadores de crianças – afinal é uma frente significativa de empregos -, e para os pais, além de proporcionar-lhes a sensação de que estão fazendo o melhor para seus filhos, é um tempo que sabem, podem trabalhar ou agendar alguns compromissos pessoais, pois os filhos estão na escola. Continuo pensando, temendo estar enganado: num deve ser só isso… Continuo refletindo sobre o que é educar as crianças para o mundo: penso que é buscar capacitá-las, sem mutilá-las naquilo de mais peculiar que possuem – a sua autenticidade -, para se adequarem ao mundo civilizado. Não necessariamente para o mundo como nós, os adultos, o desenhamos, ou para este mundo com o qual nos conformamos. Ao não deixarmos a criança aprender, ao impedí-la de descobrir, porque queremos ensiná-la no nosso tempo e do nosso modo não estamos permitindo o desenvolvimento de sua capacidade de pensar, de se posicionar no mundo, de desabrochar-se enquanto sujeito pensante, singular e único, cada qual conforme suas peculiaridades, habilidades e aptidões. É, deve ser isso educar. Deveria ser assim… É? Então…

O problema é  que diante de todo esse estardalhaço de volta as aulas não consigo deixar de perceber que há uma cumplicidade, um pacto, entre pais e educadores com relação às nossas crianças, os pais dos adultos de amanhã. Aqueles adultos serão conseqüência das crianças de hoje. E essa cumplicidade visa o que? – com as exceções que justificam a regra – visa uma criança totalmente adaptada. Aí eu me entristeço porque o que vejo é mais que isso. É a busca de uma criança submissa, subjugada, obediente, que não dê trabalho, que não acarrete problemas na escola, que não dê problema em casa e que nas comparações de praxe não sejam diferentes dos filhos do vizinho, ou do amigo, principalmente se o temos na conta de bem sucedido socialmente. – quanta pobreza!-. E para que isso aconteça o sistema educacional moderno, apesar de todo um discurso que cria, diferente disso que falo, mutila, com o aval – diria até com a conivência e cobrança dos pais-, aquelas crianças que fogem da “normalidade“. A criatividade, a originalidade, o novo, o inusitado não pode acontecer ou tem que ser deixado para as secundárias atividades extra-curriculares. A singularidade do sujeito, sua individualidade torna-se incômodo. As diferenças tornam-se motivo para a busca de um diagnóstico profissional  onde psicólogos, pedagogos, psicopedagogos, neurologistas, psiquiatras, são convocados para explicarem as  diferenças, que justifiquem, que acalme  a sensação de incompetência que estas diferenças individuais provocam nas instituições de ensino, nos pais, nos parentes. Mas, se avalizados por todos considerados competentes, coitada da criança, o problema tem que ser ela mesmo, não é assim? Nunca vi pais ou professores sendo encaminhados, para uma avaliação sobre sua adequação ou inadequação para lidarem com crianças. A sensação de incompetência decorre, então, do fato de se prepararem tão somente para lidar com o mesmo, com o igual,  com o “normal“. Coitadas das crianças que por serem privilegiadas, possuírem algum dom, alguma peculiaridade, uma sensibilidade diferenciada, terem um modo de olhar o mundo um pouco diferente do modo convencional, têm que enfrentar uma escola. Se ela resiste tanto ao enquadramento, apesar de todos os malabarismos e medidas – as vezes até folclóricas e cômicas – que são tentadas, deve ser ela mesmo o problema, dizem.  Mas quem pergunta, quem ousa perguntar sobre o que está tão indigesto pra aquela criança? E eu fico mais triste ainda quando pergunto sobre de quem seria o problema, sobre onde está o problema: e a questão olhada e refletida por este ângulo, fica fácil responder: o problema está na criança que é singular, diferente, mais inteligente talvez…

Imaginem se disséssemos que o problema esta exatamente neste conchavo que se estabeleceu entre sistemas de ensino e familiares, para o adestramento eficaz das crianças de hoje. Imagine se podemos dizer isso? Mas é o que eu afirmo. O problema não são nossas crianças. Só faltava chegarmos a conclusão de que ser diferente, genial, singular, ter um modo próprio de olhar o mundo, ser inteligente, ter um dom, ser mais sensível, enfim, ser autêntico, se constituísse num problema. Aí alguém pode objetar: mas os diferentes são poucos. E eu digo: diferentes somos todos os que escapamos do processo massacrante de adestramento consentido e patrocinado pela crueldade de adultos que não sabem e não querem aprender a lidar com as singularidades de cada sujeito em formação e desenvolvimento, com as singularidades de cada ser humano.

Não há iguais, somos todos singulares.

Os adultos de amanhã serão filhos das crianças de hoje. Que mundo adulto podemos imaginar então? Quanta tristeza! Ainda bem que uma boa parte destas criança arruma, mesmo encerando a monotonia dos banco escolares, um meio de “fugir” deste sistema. Nestas está nossa esperança de um futuro melhor, porque se formos esperar pelos que são agraciados com as benesses do sistema de adestramento atual, lamentaremos, com muito pesar, nosso futuro. Então…

Artigo publicado na revista VITRINE,  fevereiro de 2012, n. 26, ano 5 - www.revistavitrine.com.br